terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

CONCEITO E CONTEXTO: AS COMPETÊNCIAS



Um tipo de análise às vezes negligenciada no estudo de teorias e seus conceitos diz respeito ao contexto no qual são construídos. Que tipo de problema (teórico, social, etc.) se procurava resolver com a teoria, o experimento sendo conduzido ou a observação?

Este estado de coisas fica muito claro quando vemos jovens doutores fazendo revisões bibliográficas calcadas apenas em leituras de artigos publicado nos últimos cinco anos, por exemplo. Em psicologia e administração eles correm o risco de trabalhar com conceitos ininteligíveis, ou de confundir palavras iguais com significados diferentes.

Tal estado de coisas ainda piora, quando o pesquisador resolve se apropriar de um conceito estabelecido para criar "o seu conceito" ou "a sua teoria". Para realizar esta tarefa intelectual, ele deveria justificar a criação do novo, e se este novo conceito/teoria se distanciarem muito do que se vem discutindo, considerar se não seria melhor usar uma nova palavra para rotular sua ideia ou conjunto de ideias.

Em que contexto, por exemplo, David Mc Clelland criou o conceito de competência? Ele vivia uma época de consolidação dos direitos civis nos Estados Unidos, especialmente a "igual oportunidade de emprego". Uma década passada da aprovação do Civil Act, os norte-americanos podiam questionar se os critérios e instrumentos para escolha para o trabalho não seriam discriminatórios, e servir-se de ações judiciais para a reparação dos atos discriminatórios. Com a reorganização do estado norte americano para fazer cumprir a lei, as organizações começaram a se preparar para justificar por que usavam determinados critérios (até mesmo psicológicos) para a seleção de pessoal.

Mc Clelland voltou-se contra o emprego indiscriminado de instrumentos e teorias psicométricas na escolha para o trabalho. Um dos conceitos que ele atacou inicialmente foi o de inteligência. Publicou um trabalho no qual questionava o emprego de escores de teste de inteligência para fins de seleção e propôs o conceito de competência, que envolveria até a criação de novos conceitos e critérios para seleção, desde que eles passassem por estudos de associação estatística com grupos de alto desempenho e desempenho mediano. Competência, então é uma característica individual, voltada à seleção, estatisticamente associada ao alto desempenho.

Depois, ainda na mesma tradição veio Boyatzis. Qual era seu contexto? Discípulo de Mc Clelland, ele estava em uma consultoria que passou a ser demandada para a implantação de programas de competência nas organizações. A Mc Ber conseguiu, com anos de trabalho, montar uma base de dados enorme. Preocupado com a agilidade dos processos de consultoria, Boyatzis realizou um tratamento dos dados que tinha disponíveis sobre os gerentes, buscando identificar competências gerais ou universais, que diminuissem o tempo e o custo das intervenções, ao que parece. Ele publicou o livro "The Competent Manager" onde faz uma divulgação das definições de competências identificadas para o trabalho gerencial. Eram universais, ou seja, seriam associadas ao gerente em geral, mas a consultoria teria que adequá-las à realidade de cada organização-cliente.

Uma ruptura aconteceu na pesquisa de competências, quando Gary Hamel e Prahalad publicaram um trabalho sobre competências organizacionais, na Harvard Business Review, se não me falha a memória. Era um contexto totalmente diferente do anterior. Eles lidavam com a questão da nova economia de mercado, da competição em contexto de alta velocidade de desenvolvimento tecnológico, daquilo que alguns autores começaram a denominar como capital intelectual. Com a mudança de padrões de competição de alguns segmentos da economia, eles desejavam identificar um instrumento que pudesse auxiliar os diretores e estrategistas de empresas a manterem suas organizações capazes de continuar existindo no futuro (o livro deles foi traduzido para o português com o título "Competindo pelo Futuro"). Então propuseram um modelo, que de forma bem geral, visava a apontar que competências uma organização deveria desenvolver, onde deveriam haver aportes financeiros e de políticas de desenvolvimento (como a aprendizagem organizacional) para que continuassem capazes de fabricar produtos ou prestar serviços que as mantivessem ativas e bem posicionadas no futuro. Chamaram estas capacidades organizacionais de competências.

Vejam bem, a mesma palavra e três sentidos completamente diversos. Pior, três formas de atuação totalmente diferentes, para solucionar problemas diferentes. 

Cansei de ler artigos sobre competências nos quais os autores fazem uma "salada de conceitos", ou apenas dizem que fulano define competência assim, sicrano define competência assado e ele vai definir competência deste outro jeito. Uma grande tolice, permitam-me o desabafo. Aprendi com o professor de física do ensino médio de meu tempo, que só se compara temperatura com temperatura. Não faz sentido comparar temperatura com altura. Imaginem só: fulano tem 1,80 metros, enquanto sicrano tem 36,5 graus centígrados de temperatura, logo fulano é maior que sicrano. É uma frase de assustar qualquer iniciante no mundo das ciências. Infelizmente, em psicologia e administração, muitas vezes os autores não se percebem disso.

4 comentários:

  1. Olá Jairo

    Bom dia! considero sua reflexão importante não só como metodologia de análise para competência como para outros conceitos. A revisão bibliográfica pode ser parte dos achados. A busca da essência ou construção de um conceito é tão importante quanto a legitimação do conceito! Gostaria muito de "ver aqui" sua definição de competência.
    parabéns pela crítica acadêmica! Cris Limongi

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  2. Parabéns Jairo!

    Você trouxe à tona um fato que vem ocorrendo muito constantemente na atualidade. Autores reescrevem teorias de outros autores criando novas teorias, com nomes diferentes mas com o mesmo conceito assim como nomes semelhantes mas com conceitos totalmente diferentes, o que confunde muito quem está pesquisando o assunto.

    Na verdade, o que se percebe aí é um mercado literário e científico em ascensão, pouco preocupado com os conteúdos mas sim com a possibilidade se ganhar muito dinheiro com isso.

    Por isso, ainda prefiro aos clássicos, mesmo que já um pouco defasados, mas que podem muito bem ser ajustados para situações atuais. (Com algumas exceções, é claro!)

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  3. Amarildo,

    Fico muito honrado de ser confundido com o Jairo, mas sou o Jáder Sampaio, da UFMG Concordo com você, e acho que há um terceiro mercado, talvez mais lucrativo. O de consultorias. Se um autor desenvolve ele próprio o instrumento ou conceitual a ser implantado em empresas, ele se torna possuidor de direitos autorais sobre o mesmo, e não precisa pagar os direitos de trabalhos desenvolvidos por terceiros.

    Concordo plenamente com seu gosto pelos clássicos.

    Um abraço

    Jáder

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  4. O Doutorando Eduardo de Paula Lima, da UFMG, enviou o e-mail abaixo. Repasso aos leitores, porque é muito bem escrito.

    Oi Jáder!

    Gostei muito do texto! E concordo com o desabafo: os construtos não são os mesmos simplesmente porque foram nomeados da mesma forma. Ocorreu (e ocorre) algo semelhante com o conceito de estresse pós-traumático. O TEPT foi oficialmente "criado" em 1980 para responder demandas sociais nos EUA. Ex-combatentes, seus familiares e médicos se uniram contra uma guerra que consideraram absurda. O resultado foi a inclusão de uma nova categoria nosológica no DSM para explicar os efeitos da guerra na vida dos militares que retornaram pra casa. Alguns autores, ainda na década de 80, consideram que tal categoria não deveria existir, pois foi baseada em critérios mais sociais do que científicos. Enfim, desde o início já existiam dúvidas sobre a validade do construto. Mas a questão não ficou aí. O problema aumentou com as revisões do DSM em 1986, 1994 e 2000. Hoje, uma pessoa pode ser diagnosticada com TEPT após assistir um filme de terror ou escutar piadas de cunho sexual no ambiente de trabalho (sim, existem processos judiciais nos EUA dessa natureza). Pergunto: o TEPT de veteranos de guerra em 1980 é o mesmo TEPT de "vítimas" de filmes do Freddy Krueger em 2010? Penso que não, mas muitas revisões desconsideram as mudanças sofridas pelo conceito ao longo do tempo.

    abraço
    Eduardo

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