quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

DE SCHLEIERMACHER A CHICO BUARQUE: A INTENÇÃO DO AUTOR NA INTERPRETAÇÃO







"Eu quase que nada não sei, mas desconfio de muita coisa." (Guimarães Rosa)


Meus últimos anos na docência universitária foram dedicados ao ensino de metodologia de pesquisa. Alguns colegas se dedicam à matemática e à estatística como formas de construção do conhecimento, e elas têm sua importância nos processos indutivos e na constatação de regularidades. Outros se dedicam à filosofia, com suas múltiplas formas e instrumentos, e ela tem sua importância na interpretação, na análise do sentido, no estudo das singularidades. O ser humano é esta confusão ambulante, ao mesmo tempo explicável por algumas regularidades, mas dotado de uma subjetividade, apenas compreensível a partir de coisas como diálogo, hermenêutica, etc.

A hermenêutica é uma forma de conhecimento muito curiosa. É difícil falar em verdade, neste campo (mesmo nos empirismos...), mas dá para pensar em rigor. Ao pensar em uma teoria geral da compreensão Schleiermacher (1768-1834) levantou diversos aspectos do discurso a serem considerados. Um deles é a intenção e os objetivos do autor.

Penso que Freud (1856-1939) e os pós-modernos trouxeram possibilidades e problemas a esta proposta de Schleiemacher, com a inserção do conceito de inconsciente no entendimento da intenção. Freud nos mostrou que há intenções que são tão ameaçadoras ao seu pensador, que ele evita aceitar que elas existem. Isso geralmente está associado a sofrimento, sintomas e outros problemas do ser humano, que foi seu objeto de estudo. Os pós-modernos, no entando, embora eu não possa generalizar, parecem usar este conceito para justificar tudo o que pensam, até mesmo em franca contradição com os autores que às vezes analisam. Eles me soam onipotentes, mais comprometidos com seus dogmas pessoais que com uma compreensão do outro. Uma boa leitura de alguém que compartilha comigo esta desconfiança é   o texto introdutório ao livro Imposturas Intelectuais, de Sokal e Bricmont, escrito por André Assi Barreto e publicado na Griot - Revista de Filosofia (http://www.ufrb.edu.br/griot/index.php/component/content/article/20 ). Presente que ganhei do Dr. Hélio e do amigo Salomão.

Uma ilustração da questão da intenção do autor na interpretação de seu texto, eu vivi ainda por estes dias. Comprei o CD Meus Caros Amigos, de Chico Buarque. Lembrei dos tempos da quase infância, dos anos de chumbo, do medo de perguntar, dos silêncios impostos dentro de casa pelos pais. Ouve aqui, ouve ali, fui parar na genial música Passaredo, que é minha companheira de viagem desde estes mesmos tempos. Ouve aqui, ouve ali, fiquei pensando: será que é uma música de protesto? E comecei a especular: os passarinhos da música são todos brasileiros, podem significar os músicos brasileiros. A música termina sempre com o refrão: "bico calado, muito cuidado, que o homem vem aí". O homem, poderia ser "os homens", ou como falamos aqui em Minas, "os homi", que é a polícia. Bem, se eu fosse bem vaidoso, sairia publicando e falando "extra muros", mas como não estava seguro, consultei uma amiga historiadora, que doutorou-se com uma tese que trata de Chico Buarque.

O e-mail da Dra. Miriam chegou hoje, e para meu contentamento, ela explicou:

""Passaredo" não me parece canção de protesto ou de resistência, não. Se não me engano, em um dos documentários sobre o Chico, no qual ele trata da sua relação com Tom Jobim, é que ele fala especificamente dessa canção. Tom Jobim era um ornitófilo, que adorava ir ao Jardim Botânico para admirar e conhecer melhor os hábitos das espécies. Chico se inspirou nele para fazer essa canção - que compôs junto com Francis Hime para o filme "A noiva da cidade", que eu nunca vi, mas que tem outras pérolas da dupla - e foi pesquisar nomes de diferentes espécies de pássaros para a letra. É uma belezura, não é?"


É, Miriam, a música é uma belezura, mas minha compreensão não é. Se eu fosse vaidoso, poderia querer insistir que embora não seja uma música de protesto, inconscientemente Chico Buarque, que nunca quis ser símbolo da resistência, fazia protesto até onde não tencionava fazê-lo, porque, no fundo, desejava um Brasil sem ditadura, mas tinha medo dela. Todavia, eu me curvo ao seu conhecimento e convido meus leitores a refletir sobre os perigos  da chamada sobredeterminação e superinterpretação da psicanálise, e de seu uso indiscriminado nas análises de sentido, com uma frase geralmente atribuída a Freud: "um charuto pode ser apenas um charuto".

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