terça-feira, 8 de maio de 2012

FOLHA PUBLICA SOBRE MÁ CONDUTA CIENTÍFICA



A Folha de São Paulo publicou hoje sobre uma dissertação de mestrado com questionamentos sobre o uso de imagens não autorizadas de infravermelho. Aproveitando o tema, o jornalista descreve alguns recursos considerados pouco éticos para o incremento da produção e, por consequência, o acesso a recursos de fomento.

Achei curioso o conceito de produção salame, que não conhecia. Nos anos de trabalho, já encontrei trabalhos científicos de conclusão de curso que na verdade continham muito mais informação e análise teórica que o escopo de um artigo. Neste caso, não vejo problemas em publicar alguns artigos, posto que a questão central está no texto ser inédito. Parece que esta crítica se dirige a quem publica a mesma coisa, essencialmente, em duas revistas que se supõem publicar matérias inéditas.

A história da máfia da publicação parece-me um exagero em nossa área de conhecimento. Se o artigo tem baixa qualidade, não interessa quem cite, irá ser publicado em uma revista mal avaliada. Não creio que uma revista de alta qualidade necessite deste tipo de expediente. Os especialistas do tema identificam citações desnecessárias nos trabalhos, e se elas se estendem, o artigo não será recebido sem críticas pela comunidade científica.

A acusação de roubo de ideia faz-me lembrar o episódio envolvendo Charles Darwin e Alfred Russel Wallace. Os dois desenvolveram trabalhos semelhantes, com conclusões parecidíssimas, sem que um houvesse conversado com o outro. Isso levou Darwin a comunicar publicamente a teoria da evolução com base na seleção natural e atribuir aos dois os méritos da pesquisa. Até hoje se discute se Darwin (que tinha um volume muito maior de evidências colecionadas) teria ou não roubado a teoria de Wallace, coisa que o próprio Wallace não fez, porque entendia que a publicação em corroboração de um cientista como Darwin fortalecia conjuntamente suas teorias e não havia má fé, ou furto de informações da parte de um dos cientistas, o que seria realmente condenável.

É um alerta interessante o do jornalista, mas, descontextualizado, serve mais a uma caça às bruxas que a uma reflexão ética na produção científica. 

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