quarta-feira, 20 de abril de 2011

COMPETÊNCIA NÃO É APENAS CHA

Foto 1: Chapeleiro Louco tomando chá


Na Grécia antiga Platão teria definido o homem como um "bípede implume". Como era uma questão corrente, ele passou a fazer palestras nas quais defendia sua definição e mostrava a superioridade da mesma contra as demais. Diógenes, o cínico, foi a uma destas aulas públicas e quando o filósofo repetiu sua definição, o crítico lançou no meio da multidão um galo com as penas arrancadas e falou em plenos pulmões: Eis aí o homem de Platão!



As competências apareceram no meio brasileiro como outras tecnologias gerenciais: trazidas pelas multinacionais. Em vez de pesquisarem a origem e o sentido desta tecnologia, muitos profissionais e consultores saíram à cata de "o que fazer". Sem informações, eles se tornaram vítimas fáceis dos "fornecedores de soluções".


Qual é a definição de competência?


Um dos mitos disseminados amplamente no Brasil é definir competência como "um conjunto de conhecimentos, habilidades e atitudes e comportamentos que permitem permitem ao indivíduo desempenhar com eficácia determinadas tarefas, em qualquer situação".


No nascimento das competências nos Estados Unidos, havia um mal estar entre o criador do conceito e a psicometria. Os psicólogos estabeleciam critérios calcados nos instrumentos e modelos teóricos disponíveis mas não tinham certeza de sua adequação ao cargo e à carreira. Um caso emblemático, foi o do aluno recusado no programa de pós por ter tido um desempenho baixo em um teste de raciocínio verbal. Mc Clelland se opôs ao critério, porque ele era uma estratégia para avaliar pessoas com potencial para escrever, e o aluno já havia escrito e publicado, e eles tinham acesso ao comportamento do candidato. Neste caso o comportamento deveria ser um critério melhor que a habilidade subjacente (geralmente avaliada com listas de significados de palavras...)


Ele propôs, portanto, algumas mudanças na técnica de seleção: "Identificar comportamentos operantes causalmente relacionados com resultados de sucesso"


Ele passou a pesquisar características das pessoas que nada tinham a ver com os conceitos psicométricos e de avaliação psicológica já conhecidos.


Com o tempo, ele estabeleceu diversos tipos de características que não apenas comportamentos operantes: "motivos, traços de personalidade, auto-conceito, atitudes, valores, conhecimento específico e habilidades".


Como surgiram os CHA?


Dois herdeiros do trabalho de McClelland, Spencer Jr. e Spencer, que tiveram seu trabalho difundido pela consultoria internacional Hay-McBer, dividiram as características pesquisadas em soft competences e hard competences. As soft competences são as que dificilmente são mudadas por treinamento, são características próprias das pessoas.


As características capazes de modificação via treinamento, seriam os conhecimentos, habilidades e atitudes (CHA), que se vulgarizaram.


Nesta época, as competências não eram apenas voltadas à seleção, mas a todos os processos de RH, e não apenas aos cargos, mas ao potencial do candidato para uma carreira, ou seja, envolve educação profissional e ocupação de cargos futuros e de espaços organizacionais.


Limitar a seleção por competências ao CHA e à entrevista baseada em eventos comportamentais é demonstração patente de desconhecimento da técnica e de sua aplicação.


Na seleção, as competências avaliadas pelas empresas internacionais continuam envolvendo traços de personalidade, auto-conceito e outras características muito além dos CHA, porque depois de selecionados os candidatos, não é fácil mudar...


Os CHA deve ser um critério importante para o desenvolvimento de pessoas e é com esta finalidade é que são avaliados na seleção


O mais importante: o que é avaliado na seleção teria obrigatoriamente que ser associado ao desempenho imediato e futuro, COM TÉCNICAS ESTATÍSTICAS, para ser considerado competência, mas infelizmente ainda estamos na terra do blá blá blá.

4 comentários:

  1. Caro Jader,

    Parabéns pelo conteúdo. Inclui o link desta postagem no meu recém inaugurado blog empresarial. Visite-nos: www.cataventosfeiras@blogspot.com

    Fraternal abraço.
    Mariela Bier

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  2. Mariela,

    Agradeço a divulgação. Vou visitar seu site.

    Um abraço

    Jáder

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  3. Ex-ce-len-te! Não ficou claro se o texto é seu (ou se apenas o postou), mas a abordagem foi bastante oportuna. Aqui no Brasil temos essa mania de pegar alguma teoria (geralmente estrangeira) e dar uma boa empobrecida nela. O tal do CHA é um desses casos. Tive o dissabor de assistir a uma aula na faculdade de administração em que o "professor" explanou o troço todo de forma absolutamente superficial e sem compromisso algum com a origem. Lamentável. Enfim, parabéns, Jáder.

    Cordialmente,
    Andrei A.M.

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  4. Andrei, praticamente todos os textos escritos neste blog são meus, obrigado pelo incentivo. Tenho um capítulo de livro sobre o assunto, na coletânea "Administração contemporânea: desafios e controvérsias." Publicado pela Tavares Editora. Ele se chama "Uma arqueologia do conceito de competência na realidade norte-americana".

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