sábado, 19 de março de 2011

SOFRIMENTO E MECANISMOS DE DEFESA DE VOLUNTÁRIOS


Foto: capa do livro
Quando estudei motivação em voluntários espíritas, empreguei metodologias qualitativas em regime de triangulação, ou seja, técnicas diferentes para analisar aspectos semelhantes a fim de diminuir a influência das concepções do pesquisador nas análises e conclusões.

Foram quatro técnicas utilizadas: observação participante, descrição de atividades, análise de documentos e uma adaptação da técnica de história de vida.

Os interesses da pesquisa eram voltados à motivação de voluntários e à cultura de uma creche do terceiro setor, entretanto, durante a análise das entrevistas de história de vida voluntária, dois temas não previstos apareceram no discurso dos sujeitos: o sofrimento e os mecanismos de defesa (ou coping, como desejarem) empregados pelos trabalhadores voluntários.

Estas descobertas foram apresentadas rapidamente na tese e no livro (Voluntários: um estudo sobre motivação de pessoas e a cultura em uma organização do terceiro setor. São Paulo: EME, CCDPE, UNIFRAN, 2010), mas pude desenvolver melhor à luz do pensamento dejouriano em capítulo do livro "A Temática Espírita na Pesquisa Contemporânea" (São Paulo: CCDPE, 2010)

O encanto com o voluntariado cresceu na administração e ganhou um incentivo com as parcerias público-privado e as publicizações propostas por Bresser Pereira no governo FHC. No meio administrativo, vi muitas virtudes serem gratuitamente atribuídas ao trabalho voluntário, que com as práticas empresariais de responsabilidade social passaram a ser vistos como obrigatórios ou pelo menos valiosos, para os currículos dos que pretendiam entrar no mercado de trabalho.

Estas possíveis contribuições e desenvolvimentos das habilidades dos trabalhadores ainda estão por ser melhor pesquisadas, mas pude constatar que no meio dos voluntários concretos que estudei, a melhor expressão seria a de um livro famoso nos anos 60/70: " Eu nunca lhe prometi um mar de rosas."

SOFRIMENTO

Os tipos de sofrimento (e não doença mental) identificados no discurso dos entrevistados e claramente associados (por eles) ao trabalho voluntário foram: frustrações devido a imposições de superiores hierárquicos ou voluntários mais antigos e influentes, sentimentos de culpa desproporcional a erros de conduta relatados, sintomas psicossomáticos (sem causa principal orgânica, segundo médicos), ansiedade relacionada ao trabalho, frustração com resultados obtidos, sensação de impotência ante a miséria, reações à hostilidade inesperada de assistidos. Como o estudo não se voltava à análise destes fenômenos, embora a narrativa dos sujeitos atribua origem ou início do sofrimento aos episódios vividos na experiência voluntária e tenham sido apresentados sem intervenção do entrevistador, não se pode dizer que haja uma relação de causalidade e que a estrutura dos sujeitos não possa ter um papel na construção do significado e na vivência do sofrimento.

Outro ponto de depõe favoravelmente à associação entre sofrimento e trabalho são os mecanismos de defesa (estou usando Dejours, mas eles poderiam ser chamados de estratégias de coping se estivesse utilizando a tradição cognitivista em POT).

MECANISMOS DE DEFESA

Encontram-se nos relatos os seguintes mecanismos de defesa contra o sofrimento do trabalho voluntário: afastamento (temporário ou permanente) do trabalho voluntário, troca de atividade, uso de contrapartidas (falar de eventos gratificantes para diminuir a sensação de sofrimento da narrativa de um evento desagradável), evitar falar de eventos desagradáveis, uso do humor e idealização do líder carismático.

Alguns desses mecanismos são coletivos (observação participante), outros individuais. Coerentemente com este conceito, alguns são muito mal sucedidos com relação à sua finalidade, que é evitar o sofrimento.
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