sexta-feira, 15 de outubro de 2010

AS TORRES GÊMEAS DE MASLOW

Figura 1: As torres gêmeas de NY antes do 11 de setembro
Alguns autores empregados em Comportamento Organizacional tiveram seus nomes imortalizados pelos manuais, mas foram imensamente injustiçados. Tive a oportunidade de estudar a obra de Abe Maslow e creio que ele "revira no túmulo todas as vezes que alguém apresenta a "pirâmide de necessidades" atribuída a ele.
Não posso dizer que li tudo o que ele escreveu, mas confesso que tentei: procurei avidamente a pirâmide em cada parágrafo do que li sobre motivação e confesso que não a encontrei em nada dele. (Achei, sim, milhares de pirâmides atribuídas a ele na internet).
O pior, é que a pirâmide é uma péssima imagem para sua teoria da hierarquia de preponderância de necessidades. A maioria dos autores de manuais baseia-se em um texto escrito por Maslow na década de 1940. Nele, o autor norte-americano apresenta em linhas gerais a hierarquia da preponderância das necessidades. Este texto deve ter sido muito comentado, porque em 1954 Maslow publicou o livro "Motivação e Personalidade", no qual ele parece discutir com diversas críticas que lhe foram dirigidas, tal a relativização que faz com a sua teoria de necessidades.
Neste livro clássico, Maslow fala em gratificações parciais, em ação simultânea de motivos, em privação crônica de necessidades, na possibilidade de sua hierarquia não ter validade para outras realidades culturais como a oriental, entre outras afirmações, esquecidas pelos autores de manual.
Há um capítulo no livro dedicado à sua concepção de ciência, que é crítica ao mecanicismo causalista, que ele chama de atomismo metodológico, e propõe um método que se chama dinâmico-holístico, e que é bem mais compreensivo que a tradição de seus leitores de C.O.
Para não ficar extenso, por que estou propondo a metáfora das torres gêmeas para a teoria de Maslow? Porque no seu livro "Toward a Psychology of Being" o autor humanista desenvolveu sua ideia da existência de duas dinâmicas básicas de motivação: a motivação baseada em deficiência e a motivação para o crescimento (necessidades S, ou necessidades de Ser). Na primeira dinâmica, a gratificação da necessidade diminui seu poder de influência sobre o indivíduo. Na segunda dinâmica, a gratificação da necessidade aumenta ou motiva o indivíduo a realizá-la mais.
Entre as necessidades de ser estão a autoatualização, a necessidade de saber e entender e as necessidades estéticas, duas delas geralmente ausentes na suposta pirâmide.
Esta última contribuição põe por terra a ideia de que Maslow construiu uma teoria de conteúdo e não de processo. Ele explica como se dá a motivação, sua contribuição não se reduz à enumeração de fatores.
Falando assim, ninguém acredita, não é mesmo? Um autor tupiniquim fazendo releitura de um autor do primeiro mundo? Confiram, portanto, mas creiam-me, não foi difícil constatar o que fizeram com a teoria dele. Rest in Peace, Maslow.
Livros de Maslow consultados:
Motivation and Personality. (1954)
Eupsychian Management (1974)
Toward a Psychology of Being (1998)
The Farther Reaches of Human Nature (1993)
Para ler mais o que escrevi sobre ele:
Voluntários: um estudo sobre a motivação de pessoas e a cultura em uma organização do terceiro setor (2010)
O Maslow Desconhecido: uma revisão de seus principais trabalhos sobre motivação (RAUSP - v. 44, n. 1 - 2009)

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