sexta-feira, 21 de maio de 2010

O WARTEGG E A SELEÇÃO PROFISSIONAL

Conheci o Wartegg ainda na graduação. Ele não fazia parte da grade curricular, mas uma professora dedicada cedeu aos nossos pedidos para que o ensinasse, porque era muito utilizado em seleção profissional.
É um teste projetivo de personalidade, no qual se pede ao candidato que desenhe em um dos oito quadrados (parece que há versões com dezesseis) que trazem alguns sinais impressos.
Quando comecei a lecionar seleção profissional, procurei na literatura disponível os indicadores psicométricos deste instrumento em amostra brasileira. Não encontrei. Procurei informações mais detalhadas sobre a construção do teste. Fiquei no escuro. De posse de tudo o que sabia (aplicar e cotar, com base em anotações de sala de aula), comecei a orientar os alunos que não fizessem afirmações sobre os candidatos com base em um instrumento sem validade.
Muitos alunos já utilizavam o Wartegg, especialmente os da pós-graduação que trabalhavam com seleção. Eu os incitava a procurar informações sobre o teste, mas em vão. Só me traziam informações de análises clínicas dos desenhos, sem base em estudos representativos.
Em uma das aulas, um pós-graduando perguntou à colega, que usava o teste:
- E agora? O que você vai fazer?
Ela respondeu:
- Eu vou continuar usando. Não há outro teste para usar em seu lugar.
É o costumeiro descrédito dos alunos para com o que ensinam seus professores. Com a ausência da psicometria na graduação, e a fragilidade crítica, a base do conhecimento é a suposta autoridade do professor (e talvez o jogo de identificação com ele), e não as evidências empíricas. Não admira que haja colegas que usam tarô, mapa astral e grafologia como se fossem técnicas psicológicas confiáveis.
Pesquisando no Periódicos CAPES descobri um artigo desta década que mostra uma pesquisa de validade concorrente do Wartegg em amostra brasileira com 121 pessoas. Ele foi comparado com o 16PF e com o BPR5. O resultado era esperado:
"Foram encontradas poucas correlações significativas entre os instrumentos, algumas coerentes, outras incoerentes com as propostas de interpretação do Wartegg. Grande parte das interpretações clássicas não se correlacionou significativamente com os resultados dos outros testes. Com base nesse estudo, não há evidências suficientes para a aprovação do Wartegg para uso profissional"
Autor: Souza, Carmen Vera Rodrigues de; Primi, Ricardo; Miguel, Fabiano Koich.
Título: Validade do Teste Wartegg: correlação com 16PF, BPR-5 e desempenho profissional.
Fonte: Aval. psicol;6(1):39-49, jun. 2007
Até quando vamos assinar laudos com base em instrumentos que geram informações duvidosas sobre as pessoas para fins de seleção?