quarta-feira, 2 de setembro de 2009

TRANSDISCIPLINARIDADE E POLÍTICAS DA CAPES PARA A PÓS-GRADUAÇÃO

Figura 1: Enriquez na UFMG

Na década de 90, Eugène Enriquez, professor Francês, fez uma conferência magistral na UFMG sobre inter, multi e transdisciplinaridade. À época, se a memória não me engana, ele defendia a transdisciplinaridade como um caminho para o desenvolvimento teórico das ciências.
Enriquez mostrou sua trajetória acadêmica entre muitas áreas de conhecimento: das ciências sociais, ele passou pela História e Psicanálise, o que culminou no desenvolvimento dos conceitos da psicossociologia, área que se beneficiou da reconstrução de conhecimentos destas outras para o seu desenvolvimento.
O professor nos mostrava na FAFICH-UFMG as experiências de grupos transdisciplinares que se formavam na França. Respondendo a uma pergunta, ele explicava: o químico explicava suas teorias químicas para professores de todas as áreas. Nós estudávamos a possibilidade de compreensão de fenômenos nas nossas respectivas áreas com uma nova visão, uma abordagem diferente". Obviamente não nos tornávamos químicos.
Ele mostrou sua trajetória acadêmica ensinando a alunos de economia e não ocultava o mal estar que causava sua trajetória aos colegas, que desconfiavam desta inquietude intelectual e da sua não conformidade às trajetórias tradicionais.
Fazendo um contraponto, vi o currículo de uma cientista americana que se especializou na área xxx (não me lembro o número, mas era um número natural da casa das centenas) do cérebro. Inúmeras publicações sobre o mesmo tema.
O primeiro pesquisador trabalha com uma concepção de renovação das teorias científicas. Bachelard fala em cortes epistemológicos, Kuhn analisaria a partir do surgimento e constituição de novos paradigmas. A segunda pesquisadora trabalha em uma perspectiva de acúmulo progressivo de conhecimentos em uma determinada área. É um princípio antigo das concepções positivistas (no sentido comtiano) de ciência.
Ao agrupar cientistas de mesma área e mesma linha de pesquisa nos programas de pós-graduação, direcionar as publicações dos pesquisadores para a mesma área, buscando a perpetuidade das linhas e a formação de grupos de pesquisa, possivelmente, os órgãos de avaliação tornam marginais as atividades transdisciplinares e se mostram incapazes de distinguir de forma substancial o trabalho criterioso entre áreas ou construído a partir do diálogo de áreas dos programas do tipo colcha de retalhos, que ajuntam professores individualistas fazendo "carreira solo", sempre à busca da pulverização dos recursos de fomento.
Curiosamente, em minha universidade a graduação se esforça em transformar os "currículos monolíticos" em possibilidades de trajetórias flexíveis, com a criação das formações complementares, a orientação aos colegiados para não criarem falsos pré-requisitos nas disciplinas (que funcionam apenas como barreiras de entrada aos alunos), possibilitar a integralização de optativas livres, certa que está que não será possível crescer apenas criando novos cursos, tal a complexidade da integração dos conhecimentos no mundo da prática profissional. Uma pós conservadora face a uma graduação revolucionária, mercê da interferência desmesurada dos órgãos de fomento nas políticas universitárias
O efeito perverso desta política é a marginalização da renovação do pensamento teórico no Brasil que ficará à mercê do primeiro mundo, lugar em que um professor de sociologia se interessa pelos avanços da química.


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