quarta-feira, 10 de junho de 2009

UMA HISTÓRIA SOBRE A REPOSIÇÃO DE VAGAS DOCENTES


Figura 1: Ipês amarelos na região de Catalão.

Era uma vez um cerrado. Para quem é de outros lugares, o cerrado é uma vegetação que cobre uma boa parte de Minas Gerais. Ele tem árvores tortas, frutas exóticas, áreas de veredas. Quem acampava no cerrado mineiro, podia comer araticum, araçá, coquinho de buriti, guariroba, figo, jabuticaba, jatobá, marmelo, goiaba, ingá, mangaba... Podia tomar chás diversos, como pata de vaca, assa-peixe... Podia ver ipês de diversas cores, orquídeas, samambaias...

Um dia vieram os técnicos do governo. Eles eram bons técnicos, estudaram no exterior. Eles resolveram que aquelas terras eram improdutivas e que seus proprietários não poderiam mais viver para subsistência. Mostraram plantas de outros biomas, muitas do exterior, e ordenaram que os agricultores se especializassem em uma cultura e que se organizassem em torno dela.

Eles não aceitavam que os agricultores tentassem viver do que o cerrado dava. Estabeleceram pequenas reservas e começaram a ensiná-los a trabalhar sob a forma de cooperativas. Quem não entrasse na cooperativa, não recebia recursos do governo.

Aos poucos os próprios donos de cerrado começaram a pressionar seus vizinhos para aderirem à agricultura de monocultura. Derrubaram os ipês, derrubaram os buritizeiros, transformaram as veredas em açudes, extinguiram-se os araçás, como a jabuticaba era doce e querida, mantiveram alguns pés no quintal para consumo próprio.

Uma região plantou kiwi, outra se especializou em abacaxis, outra resolveu cortar as árvores e plantar capim braquiária para criação de bois da raça Hereford, outros criaram vacas holandesas, boas para leite.

O cerrado foi se transformando. As cooperativas realmente aumentavam a produção, mas diminuíram a variedade. Uma coisa curiosa começou a acontecer: com o aumento de produção, os veículos de transporte dos produtos começaram a não dar conta de levar o excedente e os centros de abastecimento diminuíram a variedade. Outro efeito: os produtos começaram a ficar mais perecíveis. O pior de tudo, é que as novas gerações de consumidores não conheciam mais o araçá, o ingá e a guariroba. Os figos passaram a ser importados da Turquia!

Os próprios agricultores resolveram especializar suas regiões, e olhavam de forma ainda mais desconfiada, considerando insano quem desejasse manter grandes áreas de cerrado. Cerrado virou passado.

Figura 2: Belos ipês roxos. Onde está o cerrado?

5 comentários:

  1. A Profa.Carmen enviou o seguinte comentário:

    Querido Jader,
    Muito interesante a associação que fazes entre reposição de vagas docentes e o cerrado mineiro.

    Mas vejo uma séria contradição no que afirmas; "Uma região plantou kiwi, outra se especializou em abacaxis, outra resolveu cortar as árvores e plantar capim braquiária para criação de bois da raça Hereford, outros
    criaram vacas holandesas, boas para leite. O cerrado foi se transformando. As cooperativas realmente aumentavam a produção, mas diminuíram a variedade."

    1) A especialização revela obrigatoriamente a variedade, enquanto a visão global facilmente a desconhece.
    2) A especialização é possível surgir em muitas pessoas, enquanto a visão global é atributo da sabedoria individual.

    Portanto, em uma universidade haverá muitos especialistas e poucos sábios. É a natureza humana. Não há como fugir dela.

    Ainda bem, porque já pensou o contrário? Muitos sábios na universidade e nenhum especialista?

    Besos,
    Car.

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  2. Carmen,

    Parece que não me fiz entender. Estou fazendo referência a um processo de especialização dos cursos de graduação como o nosso que fizeram desaparecer áreas importantes no departamento, como a Psicologia da Personalidade, da qual você valida instrumentos de análise para uso no Brasil, e que desapareceu do Departamento como setor e, se não estiver enganado, do currículo de graduação como disciplina. Cabe aos interessados sair à cata por si mesmos. Refiro-me também às áreas de atuação profissional como Psicologia do Esporte, Psicologia Jurídica, Psicologia da Saúde e outras áreas emergentes que não têm nenhuma disciplina na graduação apesar da demanda discente e de outros cursos como o de Direito. Ao atrelar apressadamente o projeto de curso ao projeto de pós, plantamos kiwi muito bem, mas perdemos a possibilidade de um curso de graduação generalista, que abrisse horizontes aos nossos alunos.

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  3. Uma vez desaparecidas estas áreas, não haverá cenário de contratação de docentes para as mesmas.

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  4. Isto me fez lembrar também de uma discussão anterior a sua chegada em nosso curso, na qual se desejava transformar o curso de Psicologia em curso de Psicanálise (segundo alguns de seus defensores). Um professor nos disse em sala de aula: quem quiser estudar Psicologia terá que procurar outro curso...

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  5. Se este projeto tivesse sido aprovado, nem eu nem você estaríamos trabalhando hoje no Departamento...

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