sexta-feira, 19 de junho de 2009

KAIROS POR ESOPO


Figura 1: Kairos

"Correndo rapidamente, medindo no fio da navalha, careca, mas com um cacho de cabelos na testa, ele não usa roupas; se você o segura de frente, pode ser capaz de detê-lo, mas uma vez que ele tenha se movimentado, nem Júpiter (Zeus) pessoalmente pode recolocá-lo em seu lugar: este é o símbolo do tempo (Kairós), o breve momento no qual as coisas são possíveis."


ESOPO, Fábulas, 536

Tradução do Inglês: Jáder Sampaio

ADMIRAÇÃO



Ontem participei de uma assembléia memorável do Departamento de Psicologia da UFMG. Independente dos resultados, gostaria de deixar registrado dois momentos de admiração. O primeiro foi com relação à conduta imparcial e ética da Diretoria da Faculdade e de seu Secretário Geral.


O segundo foi com relação à conduta discente. Os alunos lotaram um dos maiores auditórios da Escola de Biblioteconomia, assistiram aos debates e os representantes abriram mão de seu poder de voto em favor da opinião de seus representados.


Eles se retiraram organizadamente do auditório, contaram os votos de centenas de alunos e votaram proporcionalmente ao que seus colegas deliberaram. Depois declararam seus votos em assembléia, com transparência, correção e coragem.


Mesmo que tivessem votado contra o candidato que apoiei e apóio, não teria sido menor a minha admiração, que exprimo publicamente para que seja recordada e pensada pelos cidadãos brasileiros.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

NA UNIVERSIDADE PERSA

Figura 1: Estátua equestre de Alexandre

Conta-se que na Pérsia controlada pelos sátrapas de Alexandre, O Grande, um líder macedônio disse aos membros da Universidade de Ecbátana que ele nunca havia lido o Regimento Interno, nem se interessava em fazê-lo.

Um professor ameshapenta, ouvindo o poderoso Sátrapa, recordou-se do mito sagrado contado por Sigismundus.


O sábio da antiguidade conta que na origem do grande império persa houve um rei tirano que fazia tudo o que desejava. Este rei foi morto pelos filhos que juraram respeitar a lei. A partir daí fundou-se a grande civilização persa.

O ameshapenta entendeu que os macedônios levariam sua grande civilização aos tempos da horda e da barbárie.

quarta-feira, 10 de junho de 2009

UMA HISTÓRIA SOBRE A REPOSIÇÃO DE VAGAS DOCENTES


Figura 1: Ipês amarelos na região de Catalão.

Era uma vez um cerrado. Para quem é de outros lugares, o cerrado é uma vegetação que cobre uma boa parte de Minas Gerais. Ele tem árvores tortas, frutas exóticas, áreas de veredas. Quem acampava no cerrado mineiro, podia comer araticum, araçá, coquinho de buriti, guariroba, figo, jabuticaba, jatobá, marmelo, goiaba, ingá, mangaba... Podia tomar chás diversos, como pata de vaca, assa-peixe... Podia ver ipês de diversas cores, orquídeas, samambaias...

Um dia vieram os técnicos do governo. Eles eram bons técnicos, estudaram no exterior. Eles resolveram que aquelas terras eram improdutivas e que seus proprietários não poderiam mais viver para subsistência. Mostraram plantas de outros biomas, muitas do exterior, e ordenaram que os agricultores se especializassem em uma cultura e que se organizassem em torno dela.

Eles não aceitavam que os agricultores tentassem viver do que o cerrado dava. Estabeleceram pequenas reservas e começaram a ensiná-los a trabalhar sob a forma de cooperativas. Quem não entrasse na cooperativa, não recebia recursos do governo.

Aos poucos os próprios donos de cerrado começaram a pressionar seus vizinhos para aderirem à agricultura de monocultura. Derrubaram os ipês, derrubaram os buritizeiros, transformaram as veredas em açudes, extinguiram-se os araçás, como a jabuticaba era doce e querida, mantiveram alguns pés no quintal para consumo próprio.

Uma região plantou kiwi, outra se especializou em abacaxis, outra resolveu cortar as árvores e plantar capim braquiária para criação de bois da raça Hereford, outros criaram vacas holandesas, boas para leite.

O cerrado foi se transformando. As cooperativas realmente aumentavam a produção, mas diminuíram a variedade. Uma coisa curiosa começou a acontecer: com o aumento de produção, os veículos de transporte dos produtos começaram a não dar conta de levar o excedente e os centros de abastecimento diminuíram a variedade. Outro efeito: os produtos começaram a ficar mais perecíveis. O pior de tudo, é que as novas gerações de consumidores não conheciam mais o araçá, o ingá e a guariroba. Os figos passaram a ser importados da Turquia!

Os próprios agricultores resolveram especializar suas regiões, e olhavam de forma ainda mais desconfiada, considerando insano quem desejasse manter grandes áreas de cerrado. Cerrado virou passado.

Figura 2: Belos ipês roxos. Onde está o cerrado?

quarta-feira, 3 de junho de 2009

QUEM TEM MEDO DO ESTÁGIO PROBATÓRIO?


Estes dias estou relendo os trabalhos que tenho de Christophe Dejours e ocorreu-me algo paradoxal.

Há cerca de vinte e cinco anos fui estagiário em uma grande empresa de comunicações, experiência marcante na minha trajetória profissional. Tive um colega muito competente que era técnico em eletrônica e que havia concluído seu período de experiência.

O emprego era muito importante para ele, e a CLT dispunha (e ainda dispõe) que o contrato de experiência não pode exceder noventa dias (artigo 445), dentro dos quais se pode dispensar o empregado sem aviso prévio nem indenização. É possível inclusive a demissão por justa causa.

Ele começou a ficar ansioso e preocupado no período de experiência. Como não estava claro para ele o que estava sendo observado, os colegas perceberam que ele tentava “mostrar serviço” além do necessário. A chefia imediata, percebendo o seu estado, conversou com ele para que não se preocupasse tanto, passando-lhe segurança com relação à avaliação.

Curiosamente, há muitos anos tenho estado no serviço público. Diferentemente da iniciativa privada, o servidor concursado entra em estágio probatório por um período de três anos. O artigo 20 do Regime Jurídico Único dispõe sejam avaliadas: a assiduidade; a disciplina; a capacidade de iniciativa; a produtividade e a responsabilidade.

Obviamente, cabe à instituição estabelecer critérios claros para cada cargo ou carreira, em respeito à Constituição Federal, segundo o princípio da objetividade.

Mais recentemente tenho visto o que o psiquiatra francês denomina como exploração do sofrimento, mais especificamente o medo de ser dispensado do serviço público no estágio probatório entre uma certa classe de servidores. O superior hierárquico, servindo-se da generalidade dos critérios de avaliação, adverte o subordinado que ele será mal avaliado no estágio probatório, servindo-se de uma resolução que estabelece com detalhes o rito processual, mas não estabelece com objetividade o que é esperado, por exemplo, do trabalho de um professor adjunto ou assistente.

Com esta forma de ação, mais que disciplina, se demanda docilidade e submissão, estabelece-se arbitrariamente a produtividade (não há metas, objetivos ou indicadores) e os demais itens, que deveriam ser objetivos, perdem-se na subjetividade dos avaliadores. Cabe ao professor em estágio probatório temer e fazer o que lhe mandam, independente da razoabilidade das demandas, a menos que deseje ingressar em um longo processo de defesa do seu cargo.
Curioso paradoxo: a chefia da iniciativa privada evitando a pressão por produtividade e a chefia do serviço público explorando-a.