segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Revisão por Pares de Artigos Científicos

Figura 1: Precioso...

Hoje a revisão por pares é universalmente utilizada pelos periódicos científicos, o que retira o peso das costas do conselho editorial de dar parecer sobre trabalhos que necessariamente não fazem parte de suas áreas de competência.

Já ouvi reclamações inúmeras de colegas sobre a qualidade das críticas realizadas pelos "pares". Vê-se claramente que alguns, seja por inexperiência ou por excessivo rigor, fazem exigências e dão-se ao luxo de fazer comentários polêmicos ou sem a devida fundamentação.

Recentemente, com a pressão por publicação e a falta de remuneração desta atividade, muitas revistas têm procurado pareceristas à laço, precarizando a qualidade da crítica. Cabe aos pares sinalizar à revista que o artigo não está na sua área de competência, e às revistas dizerem o que esperam para uma publicação ser aceita, uma vez que já ficou no século XIX a crença dos cientistas de que eles produziam a "verdade". Hoje se sabe em todos os cantos que tentamos produzir conhecimento rigoroso, e que ele é passível de ser questionado por estudos futuros, abandonados pela comunidade científica e, conforme os historiadores da ciência, até mesmo reabilitados posteriormente.

Apenas para ilustrar, encaminhei um artigo fruto de uma pesquisa retrospectiva, censitária e unicêntrica para uma revista de excelente reputação em uma área de conhecimento fronteiriça ao que Imre Lakatos divide em soft e hard science. Como todo trabalho, ele podia ser aperfeiçoado, mas já havia sido apresentado em evento sério, sem sofrer nenhuma crítica demolidora.

O editor encaminhou um parecer, com alguns comentários interessantes, contributivos, e outros claramente equivocados. Ele dava mostras de desconhecimento ou pouca intimidade com estatística não paramétrica e com a questão do dimensionamento de amostras. Quando perguntei como fazer o dimensionamento solicitado com tratamento não-paramétrico e por que razão não se considerava o nível de significância obtido na diferença dos resultados, o editor enviou um comentário do tipo "cala a sua boca", apontando o que ele considerava ser fragilidades do estudo que o tornavam impublicável. Não foi bem isto que eu queria saber, e, o pior, minha pergunta ficou sem resposta.

Sem entrar no mérito da decisão do conselho editorial, o editor parece não ter aceito que o estudo era censitário. Ele colocou o termo entre aspas e questionou, entre outros pontos o mês em que os dados começaram a ser colhidos. Ele alegava que os dados deveriam ser colhidos alguns meses antes, pelo perigo de viés.
Só pude rir. Vou comunicar ao prefeito da cidade que ele reinaugure retrospectivamente o hospital onde a pesquisa foi realizada, alguns meses antes, para que eu possa atender o criterioso comentário do meu ímpar par...

Nenhum comentário:

Postar um comentário