quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Dedicação Exclusiva ou Exaustiva?


No mês de setembro, publiquei uma matéria sobre gerencialismo nas Universidades Federais. Trouxe hoje um exemplo que me chegou a partir de um leitor do blog, sobre a lógica de divisão dos encargos didáticos em seu departamento.
Quem teria direito a uma carga horária de 8 horas semanais, considerada mínima pelos órgãos superiores da universidade (uma disciplina na graduação e outra na pós stricto sensu, por exemplo, ou duas na graduação)? Quem atingir a produtividade mínima da tabela acima, em 7 nas 9 categorias avaliadas, ou seja:
- 8 pontos de orientação: (quatro orientandos de mestrado/doutorado ou, pasmem, de 16 a 24 alunos de PAD, PET ou equivalente na graduação), ou seja, só os credenciados à pós podem atingir este patamar;
- 8 pontos de produtividade: (um projeto de pesquisa financiado?), ou seja, só os doutores reconhecidos pelos órgãos de fomento atendem este quesito.
- 20 pontos de pesquisa: não está muito claro na tabela enviada, mas seria algo como um projeto aprovado em órgãos de fomento e dez alunos de iniciação científica. (irreal...) Este ninguém atinge com os quesitos apresentados.
- 15 pontos em atividades administrativas: (Chefias de Departamento e Coordenação de Colegiado, e, pasmem, vice-chefias, cuja atribuição é substituir o chefe em sua ausência). Os membros de órgãos colegiados de mandatos de dois anos ganham 10 pontos, terão que assumir mais uma comissão de média duração e outra de curta duração para atingir o nível almejado). Os demais órgãos da universidade e as representações externas não são pontuadas neste quesito.
- 10 pontos em eventos científicos (uma conferência internacional e um encargo de parecerista em evento internacional, ou duas conferências e uma mesa redonda em eventos nacionais, ou, quem sabe, 20 pareceres em outros eventos...). Mantido o privilégio dos que têm acesso a recursos de bancada que viabilizam viagens internacionais, "este dá para fazer" (coitado do professor adjunto, este já está condenado, nesta altura da avaliação a dar uma carga horária de até 15 horas semanais ou ter seus encargos excepcionalmente maximizados).
- 5 pontos em editoria: (editores de periódicos Qualis A nacional e internacional pontuam 4 pontos, membros de conselhos editoriais dos mesmos órgãos, 2 e o parecerista de periódicos locais tem que fazer 10 pareceres no ano para conseguir o máximo). Novamente, o privilégio de um perfil, o dos que já se destacaram nacional e internacionalmente.
- 15 pontos de publicações: dois artigos em Qualis internacional A somam 14 pontos! Então o ideal é enviar dois artigos para uma qualis nacional A e um para uma qualis C, ou um capítulo de livro, mas se você organizar um livro além dos dois nacionais, não dá... uma alternativa é publicar 30 artigos de divulgação em jornais e revistas (magazines)... Surgiu um novo perfil: o do professor-jornalista amador.
- 16 pontos em extensão: Bem, são dois projetos aprovados com apoio financeiro, quatro sem apoio financeiro, ou quem sabe, a orientação de 16 bolsistas de extensão...
- 4 pontos em agências, comissões nacionais ou internacionais: tem que ser membro de duas ou de uma e um parecer. (Um membro de câmara da FAPESP, por exemplo, não pontua).
Uma análise mais detida situa a grande massa dos docentes entre 12 e 15 horas.
Sete de nove, em quarenta horas.
Atingir metas que não dependem exclusivamente do trabalho de professor, mas de uma rede de relacionamentos.
Participar de uma pós stricto sensu, que não aceita todos os professores com titulação e produção.
Ter que financiar do próprio bolso parte da participação em eventos, ou conseguir recursos adicionais na universidade e rodar o pires nas agências de fomento sem apoio administrativo.
Montar uma equipe de pesquisa para produzir dois ou três trabalhos ao ano.
Isto é uma orientação para o trabalho dos professores? Difícil acreditar...
Nas próximas publicações analisarei a vida do professor com 15 horas de carga didática, para que não tenha seus encargos maximizados para 16 a 24 horas...








5 comentários:

  1. Recebi por e-mail o comentário de um leitor:

    jader,

    a sua analise da questao dos encargos didaticos esta corretissima. e engracado como a gente se deixa cair em determinadas armadilhas. a gente vai trabalhando e trabalhando e trabalhando... e ainda sempre achando que nao esta fazendo o suficiente e tendo que convier com a pecha de que os professores de universidades federais sao uns vagabundos. muitos o sao, de fato. principalmente aqueles que so ficam fazendo politica e futrica.

    enquanto isto, o que a universidade nos da? muita coisa, mas outras coisas tambem nao temos. p. ex., para administrar todas essas exigencias seria importante ter uma secretaria ou, qem sabe, alguem com formacao e experiencia em gerenciamento de recursos humanos. so que esta envolvido em um projetco complexo, com mais de trinta colaboradores sabe como e dificil administrar esssa turma toda e como sao precarios os recursos que a universidade oferece neste sentido.

    achei a sua materia muito legal. me alertou. me fez cair uma ficha a mais.

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  2. Recebi este comentário de uma professora da universidade em questão.

    Querido Jader,

    Entrei no seu blog. Muito legal!
    Há uma opinião tua sobre avaliação psicológica e, em outro momento, gostaria de discutir teu ponto de vista (aliás vou escrever em seu próprio blog, posso? hehehehehe). Crescemos no debate de idéias heheheheheh

    Mas o que me anima a responder a teus e-mails sobre encargos didáticos é sobre os critérios. Lendo teu comentário no blog, parece que separas dois grupos de professores: "os privilegiados" e "os coitadinhos".

    A meu modo de ver, a coisa não retrata injustiças sociais, retrata sim diferenças nos perfis psicológicos de todo grupo humano.

    Eu te pergunto: porque alguns professores que ao chegar ao departamento inicialmente assumem uma carga didática enorme, aceitam postos (chatos) de administração, comissões nanicas (e por vezes inócuas), mas continuam investindo fortemente na sua produção científica? O ponto de partida para quem chega é o mesmo para todos (há uma tendência, inclusive, de sobrecarregar aos novatos), mas com o passar do tempo atingem um perfil chamado atualmente de "produtivo".

    Neste caso as diferenças obviamente não se devem às diferenças de fator g. Devem-se sim às diferenças motivacionais. Alguns investem mais em pesquisa, outros em extensão (e aqui discordo com Marco quando diz que extensão e pesquisa é a mesma coisa), outros se dão bem em postos de administração e outros ainda preferem a atividade docente (como alguns colegas já me confidenciaram). TODAS as atividades requerem competência, esforço e tempo. Não se pode adjetivar, portanto, essas atividades. E TODAS devem ser realizadas na Universidade. OK. Dou graças a Deus que haja colegas que fazem bem aquela atividade para a qual sou um desastre (administração, por exemplo).

    O problema caro Jader, é a política educacional da Universidade. A atual política não respeita as diferenças nos perfís motivacionais do corpo docente. Na prática a Universdidade envida todos seus esforços (cegamente) para aumentar a produção científica de conhecimentos e levantar a nota dos programas de Pós-Graduação, deixando um pouco de lado (perigosamente) a graduação.
    Se essa política de Educação e Ciência é a que queremos, é uma outra discussão. Talvez sim, talvez não. Pero....é a que guia todos os critérios do funcionamento e avaliação universitária. Até na Comissão de Infraestrutura da Faculdade (uma comissão em que participei e que se tornou fantasma depois de 2 meses de funcionamento), discutia os critérios de alocação de espaço de acordo com a "produção" do professor/laboratório.
    Veja então, que as comissões reproduzem aquilo que a Universidade dita como meta a ser alcançada.

    Beijos democráticos,

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  3. Minha resposta para a colega:



    "É sempre um prazer falar com você.

    Acho que não me expliquei bem, fiz apenas uma ironia, que não ficou clara.


    O que quis dizer é que os professores assistentes jamais conseguirão uma carga horária de oito ou dez horas dentro dos critérios apresentados pela comissão. Mesmo os que se dedicarem com garra, talento e prioridade, coisa que você sempre fez em sua carreira.

    A avaliação, tem que ser uma avaliação do que é esperado que um professor faça. Se há diferenças de atribuições entre assistentes e adjuntos, elas devem ficar claras e públicas e o instrumento de avaliação (você entende muito disto) deve refletir se ele cumpriu o esperado ou não.

    Como você bem o percebeu, a universidade não faz isto. Ela prefere deixar as expectativas de desempenho subjacentes, não públicas, não claras, para que cada um dê o máximo de si mesmo e todos sejam repreendidos em função do que ainda poderiam fazer.


    Em outro trabalho apresentado em congresso na área de administração, defendi que os professores deveriam ter a possibilidade de fazer sua carreira segundo perfis de desempenho. Assim, há o professor que gosta de ensino, há o que gosta de pesquisa e o que tem excelente desempenho na extensão, assim como há os que desejam trabalhar na administração acadêmica que você citou. Atendendo-se um mínimo, cada um deveria poder escolher sua trajetória, mas nesta matriz, uma única trajetória está sendo imposta, o que você percebeu bem. É contra isto que levantei a voz (ou o teclado...)"

    Um abraço democrático.

    Jáder Sampaio

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  4. Recebi este comentário do Prof. André:

    "Jáder

    Realmente, deveríamos (TODOS) estar mais atentos às diferenças nos perfis psicológicos (e padrões de relacionamento) dos professores da Faculdade e da Universidade.

    Acredito que os perfis psicológicos e padrões de relacionamento das pessoas são influenciados por fatores filogenéticos (biológicos), ontogenéticos (sua história de vida), mas também pela cultura (no caso da nossa discussão, não só a cultura universitária, como também pela "cultura geral" na qual estamos inseridos e ATIVAMENTE participamos e construímos).

    Nesse sentido, penso que poderíamos melhor articular e respeitar todos esses fatores de influência, assim como os perfis psicológicos e padrões de relacionamento, para propormos uma organização diferente também da nossa instituição, unidade e departamento (considerados por mim como "sujeitos únicos", também com uma dinâmica própria de funcionamento, com uma história e cultura particular).


    Um abraço,

    André"

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  5. DESPERTAR É PRECISO

    (Vladimir Maiakovski)

    Maiakovski é um poeta russo. Aprendi esta poesia na graduação, com a saudosa Profa. Lúcia Las Casas. Considero oportuna.

    .
    "Na primeira noite eles aproximam-se e colhem uma flor do nosso jardim e não dizemos nada.
    .
    Na segunda noite, já não se escondem; pisam as flores, matam o nosso cão, e não dizemos nada.
    .
    Até que um dia o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a lua e, conhecendo o nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E porque não dissemos nada, já não podemos dizer nada."

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