quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Gerencialismo Acéfalo na Avaliação das Universidades Federais

Figura 1: Política de avaliação do governo gera diretrizes para o trabalho do professor?



O governo Fernando Henrique ficou conhecido por tentar implantar uma política de avaliação do serviço público nas três esferas do Estado. Nada contra avaliar-se, principalmente a coisa pública, mas é curioso tentar aumentar os encargos administrativos ao mesmo tempo em que se enxuga radicalmente o Estado ou setores do Estado.


Ele parece ter se inspirado em uma corrente da administração pública que advogava o gerencialismo, ou seja, a implantação de técnicas da administração privada no setor público. Eu sempre concordei que um dos problemas da administração pública está na burocracia, especialmente na cegueira burocrática, porque depois que o órgão ou setor é criado, prevalece a distribuição de funções sobre a consciência de resultados.


O gerencialismo nas universidades, contudo, chegou de uma forma perversa, se considerarmos o planejamento estratégico ou apenas organizacional.


Em 2002, apresentei um trabalho no Encontro Nacional da Associação Nacional de Pós-Graduação em Administração que tratava de políticas docentes na Universidade XYZ.


Foi uma conversa rápida, mas interessante. Estudei apenas um caso, mas ele era de tal forma paradigmático, que muitos dos presentes identificaram sua realidade em outras universidades do país.


Em sua essência o que ele observa é a ausência de autogestão da autarquia universitária. Além de não ter inserido o planejamento estratégico e a análise de ambientes em suas práticas de gestão (navegante sem mapa) a universidade tornou-se vítima das políticas de avaliação das agências e órgãos governamentais com quem interage.


Figura 2: Professor desvalorizado - Fonte: Revista Veja

Os professores (e talvez os outros membros da comunidade universitária) sofrem "na pele" e dentro dela esta política insensata. Com diferentes fontes de recursos oriundas de agências e órgãos diferentes e atingindo áreas diferentes da Universidade, a falsa unidade até então existente tornou-se extremamente fragmentária.


Alguns dos resultados:

- Todos os chefes de departamento entrevistados afirmam não ter acesso a diretrizes a valores da política docente (porque não se acham escritos)


- As agências de pesquisa exigem que o docente tenha um perfil de pesquisador, o governo, através do PAIUB e da recém falecida GED, valoriza as horas de ensino na graduação, a CAPES, valoriza as horas de ensino e orientação na pós-graduação, o relatório INA (da CPPD desta Universidade) alega não ter parâmetros para avaliar horas na extensão (embora ela figure entre as três grandes atividades de uma Universidade Pública).


- Como a universidade precisa funcionar e as atividades administrativas de gestão são atribuições de professores, inicia-se uma pressão entre grupos de interesses para que um de seus docentes "sacrifique" sua carreira por algum tempo, assumindo cargos como chefias e direções. As direções tem uma gratificação mais significativa, mas quase inviabilizam o atendimento às exigências traçadas por estes diversos órgãos.


- Há exigências que vêm da administração central, que conhece e disputa a matriz de recursos do governo federal com outras Universidades. Dos interesses do governo vêm o aumento do número de alunos atendido pela autarquia, o surgimento de novos cursos, especialmente os noturnos, que demandam menos investimento em infraestrutura (e muito comumente nenhum investimento em pessoal administrativo).


Os chefes de departamento sempre se sentem mal preparados para atender à pesquisa, independente do tempo de gestão. Os mais novos pensam que desconhecem porque assumiram a pouco tempo, os mais experientes admitem que aprenderam como fazer sua função por tradição e por "ensaio e erro".


Deixo com o leitor dois comentários transcritos de entrevistas:


"“A política é que o professor faça de tudo. Ele tem que dar aula, ele tem que administrar, ele tem que pesquisar, ele tem que produzir. Enfim, acho que há um desequilíbrio nisso aí” (Chefe de Departamento 1)"


"O professor acaba fazendo (pesquisa) nas franjas do tempo, o que prejudica”. (Chefe de Departamento 1)"

Este último comentário oculta também uma outra realidade que ninguém viu (ou teve coragem de comentar): a terceirização e a taylorização das pesquisas, na qual o pesquisador se torna uma espécie de chefe administrativo e alunos recém ingressos na pós ou mesmo da graduação se tornam sua equipe de pesquisa, uma vez que "pesquisar é preciso, viver não é preciso".