domingo, 3 de agosto de 2008

Uma Quase-Réplica de um Estudo de Borsoi e Codo


Orientei no meio da década de 90 uma monografia sobre saúde mental no trabalho de auxiliares de enfermagem em um hospital público de urgência de Belo Horizonte para o Programa de Especialização em Administração da Fundação João Pinheiro.

Os autores foram um trio com uma diversidade de qualificações muito rica: um administrador (Gilvan Martelo), uma médica (Moema Caixeta) e uma psicóloga (Conceição Campos).

Uma primeira parte foi a de revisão teórica. Os jovens autores apresentaram sinteticamente o que havíamos trabalhado apenas in passant no nosso curso: três linhas de pesquisa diferentes na área de saúde mental no trabalho: o modelo bio-psico-social de estresse, os estudos da psicopatologia do trabalho de Dejours e o que rebatizamos como modelo da Epidemiologia Social de Wanderley Codo, influenciados pela tese de José Jackson Sampaio (Epidemiologia da Imprecisão).

Uma monografia de especialização não é uma tese nem uma dissertação, mas os alunos ainda sintetizaram os resultados do trabalho de Codo chamado “Enfermagem, Trabalho e Cuidado”, que se tornou uma espécie de paradigma que desejávamos testar.

Eles analisaram criticamente as categorias do MMPI, que foi o instrumento de varredura que utilizamos para a identificação de perfis psicopatológicos na população estudada. À época já se falava do MMPI II, mas a pesquisa teve que utilizar o instrumento disponível, ainda que com categorias analíticas que não acompanharam os avanços da psiquiatria (O MMPI de Hataway é Kretschmeriano). Codo havia feito uma adaptação do MMPI que também era a base do seu instrumento de pesquisa, mas não havia publicado nenhum estudo psicométrico que conhecêssemos. Como o uso da versão simplificada do teste perdia as escalas de controle, que identificam as pessoas quem mentem abertamente, que respondem aleatoriamente e outros outliers que desejávamos evitar, utilizamos a versão completa. Além do MMPI foi aplicado um questionário que continha informações sobre diversas categorias que desejávamos analisar, baseadas no trabalho de Codo e José Jackson que enumerava diversas variáveis do ambiente e relações de trabalho a serem consideradas nos estudos de saúde mental no trabalho.

Os autores fizeram uma descrição detalhada da organização, um grande hospital público de urgências, analisaram documentos, visitaram a organização, entrevistaram enfermeiros e supervisores de enfermagem, aplicaram o teste e os questionários em uma população de 165 auxiliares de enfermagem e analisaram os dados empregando diversas técnicas estatísticas, dentre elas a regressão logística.

Foram muitas as dificuldades para a participação dos auxiliares de enfermagem na pesquisa. Descobrimos que apesar do MMPI ter sido validado para o uso da população em estudo, o tempo gasto e as questões incomodaram bastante os respondentes. Houve muitas manifestações de insatisfação, medo e outras reações desfavoráveis durante a pesquisa. A equipe chegou a ser hostilizada verbalmente em alguns momentos. De qualquer forma, as pessoas responderam, mas as escalas de controle nos exigiram invalidar 27 respondentes, e tratamos as respostas de 138 respondentes, um número superior à amostra estimada de 105 questionários para obter-se significância de resultados na população estudada.

Dividiu-se os enfermeiros, de acordo com os resultados das escalas do MMPI, em grupos epidemiológicos: normal, de risco e problemático. Cerca de 36% dos sujeitos foram situados nos grupos de risco e problemático, quase 19% do total são considerados problemáticos, o que sugere uma prevalência de doença mental alta na população estudada, corroborando os resultados obtidos por Borsoi e Codo.

Encontrou-se um número maior de sujeitos de risco e problemáticos, proporcionalmente, no Bloco Cirúrgico, embora com a amostra obtida os intervalos de confiança sejam grandes. Não houve como comparar com o estudo de Borsoi e Codo por terem estudado uma instituição com áreas diferentes.

As diferenças de perfil epidemiológico por turno de trabalho (diurno e noturno) não mostraram diferenças significativas (ao contrário do estudo de atos violentos que fizemos com policiais militares), nas análises univariadas. A pequena diferença do grupo de risco vai tomar uma importância maior na análise multivariada, que se explica à frente.

A grande maioria das auxiliares de enfermagem não se queixou da disciplina no trabalho.

Ao aplicarmos regressão logística para identificar os fatores que estariam associados aos perfis de risco e problemático, identificamos as seguintes variáveis: a percepção do auxiliar de enfermagem de rigidez na disciplina, a percepção do profissional de enfermagem da sua profissão como desvalorizada socialmente e a percepção dos sujeitos terem todos os equipamentos necessários à sua disposição.

Analisando o grupo de risco isoladamente, surge também as variáveis turno e deslocamento casa-trabalho casa, sendo o turno diurno mais propício para maior incidência de população de risco. As pessoas que gastam menos tempo deslocando-se para o trabalho têm mais possibilidade de estar no grupo de risco, possivelmente por se tratar de pessoas com um status social mais elevado, desempenhando um trabalho menos valorizado socialmente.

Um resultado divergente do estudo de Borsoi e Codo foi o perfil epidemiológico do grupo problemático. A patologia mais prevalente foi a hipocondria e não a histeria (que tem uma prevalência alta, mas quase a metade da hipocondria). Seguem-se indicadores de paranóia, esquizofrenia e desvio psicopático acima dos valores sociais de prevalência, mas com indicadores muito inferiores aos dos hipocondríacos.

No grupo de risco, as prevalências mais altas são a hipocondria, a depressão, a esquizofrenia e a paranóia.

Passados os anos, vemos que a hipocondria é uma das categorias que o DSMIV inserem nos chamados Transtornos Somatoformes, que incluem categorias nosológicas com muitos sintomas das chamadas histerias de conversão por Freud. De qualquer forma, Hataway vê diferenças entre os grupos, e isto deve ser considerado em uma análise mais cuidadosa sobre as diferenças de resultados entre os nossos estudos.

Embora haja muita convergência de resultados, na lógica dos estudos empíricos em busca de generalização, as réplicas são uma forma de pesquisa importante para a corroboração ou não de resultados encontrados em pesquisas epidemiológicas, lógica para a qual não espero compreensão em meio a autores que não se afinizam com esta família metodológico-epistemológica.



Não chegamos a publicar artigo deste estudo. A monografia completa pode ser obtida na Biblioteca da Fundação João Pinheiro, em Belo Horizonte-MG

2 comentários:

  1. Pois é, Prof. Jáder, saudações!
    Um bom tempo se passou, mas a memória daquela pesquisa continua.
    Lembro-me de como foi difícil aplicar o MMPI nos profissionais daquela instituição, pois o clima organizacional não era dos mais favoráveis. Era um momento em que se revia a questão de contratos administrativos e funções públicas, o que gerou um sentimento de desconfiança, podendo talvez (muito talvez) ter comprometido algumas das respostas.
    Ao contrário das minhas colegas, eu não sofri nenhum tipo de represália ou de ofensa, provavelmente por ter aplicado as proposições para o pessoal noturno (que trabalham num esquema um pouco mais "tranquilo").
    No entanto, não escapei de situações imprevistas, como choros, revelações inadequadas e, curiosamente, momentos de extrema euforia e risos no auditório (eu consegui reunir a maior turma para aplicação).
    No processamento dos dados, comentamos que, diante de algumas conversas com os profissionais (que não constaram da pesquisa) e dos resultados parciais, a patologia prevalente seria a histeria, mas esta, embora significativa, foi menor que a incidência da hipocondria (à época, acho que isto não me agradou, não sei...).
    Não tivemos notícias de divulgação do trabalho no hospital, mesmo o grupo tendo entregue uma impressão para o Diretor que nos recepcionou, mas fiquei sabendo, há 2 anos mais ou menos, que a monografia ainda está arquivada na Instituição e que foi até utilizada pela diretora de uma escola profissionalizante como base para seu curso de pós-graduação.
    Trabalho numa área do Governo bem distante daquela que foi nosso objeto de pesquisa, o que me fez pensar naquele trabalho como uma ousadia.
    Então com 25 anos, eu não sabia bem como me posicionar diante de uma matéria com diversos prismas, muito conteúdo e inúmeros estudiosos (fomos de Ramazzini a Buschinelle).
    Reli alguns capítulos que foram de minha redação e me senti lendo algo escrito por outrém.
    Foi um intervalo (no bom sentido)nos meus estudos habituais, uma ruptura momentânea, dias turbulentos...
    Penso que tudo isto se deve à intensidade do tema escolhido. Foi um grande desafio.
    Inobstante o distanciamento que ficou, considero um bom momento para ser guardado com respeito.
    Grande abraço,
    Gilvan Martelo

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  2. Gilvan,

    É um prazer falar com você. Estou com uma monografia feita pela Sandra que propõe uma intervenção com base no seu trabalho, e que o cita bastante.

    Em breve farei um post sobre o assunto.

    Nunca pude comentar com vocês, mas problemas à parte, acho que fizeram um ótimo trabalho para um curso de especialização.

    Um abraço

    Jáder

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