domingo, 3 de agosto de 2008

Currículo e Atividade Profissional dos Bombeiros



Jairo Eduardo Borges-Andrade e a equipe da UnB vêm desenvolvendo há muitos anos metodologias para avaliação de necessidades de treinamento. Já havia utilizado muitas vezes este método para identificar e priorizar habilidades a serem treinadas em organizações, mas recebi uma proposta de orientação diferente do então Tenente Coronel Roberto Oliveira, do Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais.

Ele pretendia avaliar o currículo empregado para a formação dos bombeiros. Sua suspeita era que o currículo utilizado à época tinha uma ênfase muito grande nas disciplinas de formação básica. A meu ver, tratava-se de uma herança de um período anterior dos bombeiros, em que se aceitava candidatos com o equivalente ao primeiro grau. (Na grade se encontrava educação moral e cívica, aritmética e outros conteúdos claramente concorrentes com a formação escolar, que poderiam ser objeto de seleção e não de formação específica).

Comparando o currículo mineiro com o de organizações de outros estados, Roberto mostrou que havia um subdimensionamento do ciclo profissional.

Resolvemos juntos fazer uma pesquisa trabalhosa: estudar uma amostra significativa de profissionais que nos sinalizariam a importância, o domínio e a freqüência (esta última escala foi uma adaptação do método da UnB) que utilizavam as mais diversas habilidades (hoje talvez chamassem de competências) na sua atividade profissional.

Um primeiro problema: os bombeiros têm áreas de atuação diferentes. Resolvemos este problema estratificando a amostra para quatro grupos de atividades: atendimento pré-hospitalar, prevenção contra incêndios, tática de combate a incêndios e busca e salvamento.

Houve um espaço no instrumento para os participantes comentarem sobre sua formação e o quanto ela os preparou para sua atuação profissional.

Os resultados foram muito ricos. Além de apontar as dicrepâncias de desempenho (atividades que os bombeiros deveriam ser capazes de fazer e que não se sentiam preparados para fazê-lo) e relacionar a importância das centenas de habilidades pesquisadas para a composição do currículo, um terço das sugestões corroboravam a idéia de se retirar matérias não realizadas à atividade de bombeiro para se desenvolver melhor as habilidades que seriam demandadas em campo, para que não tivessem que aprender-fazendo (sem saber, o que é pior). Eles demandaram também um aumento da carga horária de estágios e apresentamos formas diferentes de se formar as pessoas, além das aulas expositivas e demonstrativas.

O trabalho foi muito bem recebido pela banca avaliadora, mas não tenho notícias seguras de sua implantação pela academia. Penso que não bastam as evidências e a participação das pessoas para a mudança organizacional, esta é sempre atravessada pelos interesses dos agentes e pelas disputas de poder...


A monografia não foi publicada sob a forma de artigo. O leitor pode encontrá-la na Academia de Polícia da Polícia Militar de Minas Gerais

2 comentários:

  1. Professor Jáder Sampaio, gostaria de saber como podemos realizar uma avaliação psicossocial à trabalhadores que exercem função em confinamento ou com condições de difícil acesso? O que o senhor sugere?

    Atenciosamente,

    Carlos Craveiro

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  2. Carlos,

    Perdoe a demora em responder. Não estou moderando os comentários, portanto, não os recebo por e-mail.

    Entre em contato comigo no jadersampaio@ufmg.br e especifique mais o que deseja da avaliação, por gentileza.

    Um abraço

    Jáder

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