quinta-feira, 21 de agosto de 2008

Existe Trabalho Voluntário?

Figura 1: Cabeleireiro Voluntário no Paraná

O sentido ou significado de trabalho nos dias de hoje está quase indissociado do trabalho remunerado, aquele baseado em um vínculo empregatício, ou quem sabe no trabalho autônomo dos profissionais chamados liberais.

O que é trabalho? Esta pergunta simples pode nos remeter a uma infinidade de concepções filosóficas.

Geraldo José de Paiva, professor da USP, fez uma revisão ampla dos significados do trabalho, mostrando que nem sempre este significado traz uma conotação negativa. Com base no seu artigo encontramos:

- Tripalium: (Latim tardio) – instrumento que imobilizava o cavalo para colocar a ferradura
- Travail (do inglês e do francês) – trabalho de parto, que gerou o sentido de sofrimento
- Labor (Latim clássico) – fadiga que acompanha o trabalho (de onde vieram as palavras portuguesas labor, labuta e lavra
- Opus (Latim clássico) – que originou a palavra portuguesa obra, sem sentido negativo, utilizado pelos músicos para catalogar temporalmente as publicações de um compositor.
- Érgon (Grego) – que guarda o triplo significado de negócio, resultado da manufatura, e ação ou ato
- Arbeit (alemão) – de orbhos, criança órfã que por sua condição é obrigada a um pesado trabalho físico. (contudo, Lutero redefiniu o trabalho como uma atividade dirigida e útil, vocação divina)
- Arubaito (japonês) – trabalho temporário, degradado por ser penoso, sujo e perigoso

Hannah Arendt destaca três palavras latinas, necessárias à compreensão da vita activa: o labor (mais físico), o trabalho (a produção das coisas artificiais, a mundanidade) e a ação, (atividade exercida diretamente entre os homens, política). Ela faz uma leitura de Aristóteles, na qual o labor seria o modo de vida do escravo, do mercador e do artesão livre.

Talvez a melhor forma de buscar uma essência da noção de trabalho seja por antonímia. O ócio seria o melhor antônimo da palavra trabalho, e envolve folga, repouso, inação, descanso.

Desta forma, se tivesse que apontar um termo comum a estas palavras e contrário ao ócio, certamente escolheria atividade, e não o prazer (oposto de sofrimento) ou a gratificação financeira.

Entendendo o trabalho como atividade, não há como negar a existência do trabalho voluntário. Foi o que fez o legislador brasileiro. O serviço voluntário tangencia de tal forma o trabalho remunerado, que o legislador achou por bem exigir um termo de adesão, uma espécie de contrato no qual as partes (a pessoa que se voluntaria e o órgão público ou organização sem fins lucrativos) deixam clara a inexistência de vínculo empregatício. Se não houvesse qualquer semelhança entre estas duas formas de trabalho, qual seria a necessidade de um documento e de uma legislação estabelecendo as bases de distinção entre eles?

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

A grafologia é uma boa técnica psicológica de seleção?


Há muitos anos se discute esta questão.
Na dissertação de 1995, constatei que micro e pequenas indústrias japonesas operando no Brasil empregavam a grafologia para análise de seus candidatos.

Os profissionais que utilizam a técnica defendem-na, embora escasseiem estudos sobre a validade de seu uso em seleção de pessoal.

Recentemente os doutores Robertson e Smith (2001) publicaram o resultado de uma metanálise de estudos sobre técnicas de seleção. A metanálise é uma família de técnicas que consiste na análise conjunta de dados colhidos em estudos diferentes.

Basicamente, os autores empregaram técnicas de associação entre resultados de técnicas de seleção e duas outras informações sobre os candidatos: os resultados apresentados após treinamento (aprendizagem) e os resultados da avaliação de desempenho (desempenho).

A grafologia foi estudada apenas em comparação com a avaliação de desempenho. O dado obtido pelos pesquisadores foi 0,03 em uma escala que varia entre -1 e 1 ou seja, não há qualquer capacidade preditiva entre os resultados obtidos pela grafologia e o desempenho dos candidatos, seja isoladamente, seja em associação com outras técnicas de seleção.

Embora não exista técnica psicológica de seleção perfeita, seu emprego diminui a incerteza da seleção quando há bons estudos de validação.

Neste mesmo estudo os autores verificaram que o emprego conjunto de testes cognitivos com provas situacionais (worksample) estão 0,61 associados , ou seja, bons resultados nestes testes reduzem a incerteza em quase 40%.

Como se fazia seleção de policiais militares em Minas Gerais?


Foto 1: Academia de Polícia Militar da PMMG



Orientei em 1998 um trabalho para a Fundação João Pinheiro e Academia de Polícia Militar, conjuntamente com a então Capitã Maria Carmem, no qual os capitães José Carlos Gomes Saraiva, Ezequiel Castilho de Oliveira e Hélvio Cristo Moreira estudaram a seleção de ingresso na PMMG, especialmente a entrevista.

Um dos produtos menores, mas muito interessante, do trabalho dos capitães foi o resgate da história institucional do processo de seleção, do qual escolhi algumas informações abaixo:


1963

– Exame psicológico apenas para o curso de oficiais
- Não havia processo seletivo para soldados
- Analfabetos eram aceitos como soldados de segunda classe


1965

– Criação do Batalhão-Escola
- Exame de escolaridade
- Gabinete Psicotécnico de Seleção e Orientação de Soldados
- Candidatos admitidos e avaliados após muito tempo (2 a 3 anos)
- Mesmo reprovados, candidatos permaneciam incluídos
- Escola de alfabetização
- Índice de aproveitamento nos cursos (inferior a 50%)
- Aplicação de exame psicológico por praças


1975

– Criação do Centro de Recrutamento e Seleção – CRS (órgão autônomo de apoio à diretoria de pessoal)
- CRS – Executar a seleção na capital e no interior do estado
- Avaliação de escolaridade, exames médicos e avaliação psicológica


1980

– Manual de Recrutamento, Seleção e Formação da PMMG (MARESELFO)
- Criação dos postos de recrutamento e seleção (descentralização), nos quais cada unidade passa a fazer os exames médicos, escolares, de aptidão física, entrevista com oficiais além do recrutamento.
- Mudança da concepção do bom soldado
- Melhora do índice de aproveitamento no Curso de Formação de Soldado(de 40% para 90%)


1987

– Criação do cargo de Psicólogo (10 oficiais admitidos)


1996

– Revisão do MARESELFO, que se torna Manual de Recrutamento e Seleção (MARESEL)



Posteriormente, trabalhei na construção de um perfil de competências do Policial Comunitário, que afetou um pouco o processo de seleção, mas este assunto é outra história...



A monografia não se tornou artigo, mas pode ser encontrada na biblioteca da Academia de Polícia da PMMG, com o título: "A entrevista como instrumento de seleção para ingresso na PMMG". Belo Horizonte, 1998.

domingo, 3 de agosto de 2008

Currículo e Atividade Profissional dos Bombeiros



Jairo Eduardo Borges-Andrade e a equipe da UnB vêm desenvolvendo há muitos anos metodologias para avaliação de necessidades de treinamento. Já havia utilizado muitas vezes este método para identificar e priorizar habilidades a serem treinadas em organizações, mas recebi uma proposta de orientação diferente do então Tenente Coronel Roberto Oliveira, do Corpo de Bombeiros Militar de Minas Gerais.

Ele pretendia avaliar o currículo empregado para a formação dos bombeiros. Sua suspeita era que o currículo utilizado à época tinha uma ênfase muito grande nas disciplinas de formação básica. A meu ver, tratava-se de uma herança de um período anterior dos bombeiros, em que se aceitava candidatos com o equivalente ao primeiro grau. (Na grade se encontrava educação moral e cívica, aritmética e outros conteúdos claramente concorrentes com a formação escolar, que poderiam ser objeto de seleção e não de formação específica).

Comparando o currículo mineiro com o de organizações de outros estados, Roberto mostrou que havia um subdimensionamento do ciclo profissional.

Resolvemos juntos fazer uma pesquisa trabalhosa: estudar uma amostra significativa de profissionais que nos sinalizariam a importância, o domínio e a freqüência (esta última escala foi uma adaptação do método da UnB) que utilizavam as mais diversas habilidades (hoje talvez chamassem de competências) na sua atividade profissional.

Um primeiro problema: os bombeiros têm áreas de atuação diferentes. Resolvemos este problema estratificando a amostra para quatro grupos de atividades: atendimento pré-hospitalar, prevenção contra incêndios, tática de combate a incêndios e busca e salvamento.

Houve um espaço no instrumento para os participantes comentarem sobre sua formação e o quanto ela os preparou para sua atuação profissional.

Os resultados foram muito ricos. Além de apontar as dicrepâncias de desempenho (atividades que os bombeiros deveriam ser capazes de fazer e que não se sentiam preparados para fazê-lo) e relacionar a importância das centenas de habilidades pesquisadas para a composição do currículo, um terço das sugestões corroboravam a idéia de se retirar matérias não realizadas à atividade de bombeiro para se desenvolver melhor as habilidades que seriam demandadas em campo, para que não tivessem que aprender-fazendo (sem saber, o que é pior). Eles demandaram também um aumento da carga horária de estágios e apresentamos formas diferentes de se formar as pessoas, além das aulas expositivas e demonstrativas.

O trabalho foi muito bem recebido pela banca avaliadora, mas não tenho notícias seguras de sua implantação pela academia. Penso que não bastam as evidências e a participação das pessoas para a mudança organizacional, esta é sempre atravessada pelos interesses dos agentes e pelas disputas de poder...


A monografia não foi publicada sob a forma de artigo. O leitor pode encontrá-la na Academia de Polícia da Polícia Militar de Minas Gerais

Uma Quase-Réplica de um Estudo de Borsoi e Codo


Orientei no meio da década de 90 uma monografia sobre saúde mental no trabalho de auxiliares de enfermagem em um hospital público de urgência de Belo Horizonte para o Programa de Especialização em Administração da Fundação João Pinheiro.

Os autores foram um trio com uma diversidade de qualificações muito rica: um administrador (Gilvan Martelo), uma médica (Moema Caixeta) e uma psicóloga (Conceição Campos).

Uma primeira parte foi a de revisão teórica. Os jovens autores apresentaram sinteticamente o que havíamos trabalhado apenas in passant no nosso curso: três linhas de pesquisa diferentes na área de saúde mental no trabalho: o modelo bio-psico-social de estresse, os estudos da psicopatologia do trabalho de Dejours e o que rebatizamos como modelo da Epidemiologia Social de Wanderley Codo, influenciados pela tese de José Jackson Sampaio (Epidemiologia da Imprecisão).

Uma monografia de especialização não é uma tese nem uma dissertação, mas os alunos ainda sintetizaram os resultados do trabalho de Codo chamado “Enfermagem, Trabalho e Cuidado”, que se tornou uma espécie de paradigma que desejávamos testar.

Eles analisaram criticamente as categorias do MMPI, que foi o instrumento de varredura que utilizamos para a identificação de perfis psicopatológicos na população estudada. À época já se falava do MMPI II, mas a pesquisa teve que utilizar o instrumento disponível, ainda que com categorias analíticas que não acompanharam os avanços da psiquiatria (O MMPI de Hataway é Kretschmeriano). Codo havia feito uma adaptação do MMPI que também era a base do seu instrumento de pesquisa, mas não havia publicado nenhum estudo psicométrico que conhecêssemos. Como o uso da versão simplificada do teste perdia as escalas de controle, que identificam as pessoas quem mentem abertamente, que respondem aleatoriamente e outros outliers que desejávamos evitar, utilizamos a versão completa. Além do MMPI foi aplicado um questionário que continha informações sobre diversas categorias que desejávamos analisar, baseadas no trabalho de Codo e José Jackson que enumerava diversas variáveis do ambiente e relações de trabalho a serem consideradas nos estudos de saúde mental no trabalho.

Os autores fizeram uma descrição detalhada da organização, um grande hospital público de urgências, analisaram documentos, visitaram a organização, entrevistaram enfermeiros e supervisores de enfermagem, aplicaram o teste e os questionários em uma população de 165 auxiliares de enfermagem e analisaram os dados empregando diversas técnicas estatísticas, dentre elas a regressão logística.

Foram muitas as dificuldades para a participação dos auxiliares de enfermagem na pesquisa. Descobrimos que apesar do MMPI ter sido validado para o uso da população em estudo, o tempo gasto e as questões incomodaram bastante os respondentes. Houve muitas manifestações de insatisfação, medo e outras reações desfavoráveis durante a pesquisa. A equipe chegou a ser hostilizada verbalmente em alguns momentos. De qualquer forma, as pessoas responderam, mas as escalas de controle nos exigiram invalidar 27 respondentes, e tratamos as respostas de 138 respondentes, um número superior à amostra estimada de 105 questionários para obter-se significância de resultados na população estudada.

Dividiu-se os enfermeiros, de acordo com os resultados das escalas do MMPI, em grupos epidemiológicos: normal, de risco e problemático. Cerca de 36% dos sujeitos foram situados nos grupos de risco e problemático, quase 19% do total são considerados problemáticos, o que sugere uma prevalência de doença mental alta na população estudada, corroborando os resultados obtidos por Borsoi e Codo.

Encontrou-se um número maior de sujeitos de risco e problemáticos, proporcionalmente, no Bloco Cirúrgico, embora com a amostra obtida os intervalos de confiança sejam grandes. Não houve como comparar com o estudo de Borsoi e Codo por terem estudado uma instituição com áreas diferentes.

As diferenças de perfil epidemiológico por turno de trabalho (diurno e noturno) não mostraram diferenças significativas (ao contrário do estudo de atos violentos que fizemos com policiais militares), nas análises univariadas. A pequena diferença do grupo de risco vai tomar uma importância maior na análise multivariada, que se explica à frente.

A grande maioria das auxiliares de enfermagem não se queixou da disciplina no trabalho.

Ao aplicarmos regressão logística para identificar os fatores que estariam associados aos perfis de risco e problemático, identificamos as seguintes variáveis: a percepção do auxiliar de enfermagem de rigidez na disciplina, a percepção do profissional de enfermagem da sua profissão como desvalorizada socialmente e a percepção dos sujeitos terem todos os equipamentos necessários à sua disposição.

Analisando o grupo de risco isoladamente, surge também as variáveis turno e deslocamento casa-trabalho casa, sendo o turno diurno mais propício para maior incidência de população de risco. As pessoas que gastam menos tempo deslocando-se para o trabalho têm mais possibilidade de estar no grupo de risco, possivelmente por se tratar de pessoas com um status social mais elevado, desempenhando um trabalho menos valorizado socialmente.

Um resultado divergente do estudo de Borsoi e Codo foi o perfil epidemiológico do grupo problemático. A patologia mais prevalente foi a hipocondria e não a histeria (que tem uma prevalência alta, mas quase a metade da hipocondria). Seguem-se indicadores de paranóia, esquizofrenia e desvio psicopático acima dos valores sociais de prevalência, mas com indicadores muito inferiores aos dos hipocondríacos.

No grupo de risco, as prevalências mais altas são a hipocondria, a depressão, a esquizofrenia e a paranóia.

Passados os anos, vemos que a hipocondria é uma das categorias que o DSMIV inserem nos chamados Transtornos Somatoformes, que incluem categorias nosológicas com muitos sintomas das chamadas histerias de conversão por Freud. De qualquer forma, Hataway vê diferenças entre os grupos, e isto deve ser considerado em uma análise mais cuidadosa sobre as diferenças de resultados entre os nossos estudos.

Embora haja muita convergência de resultados, na lógica dos estudos empíricos em busca de generalização, as réplicas são uma forma de pesquisa importante para a corroboração ou não de resultados encontrados em pesquisas epidemiológicas, lógica para a qual não espero compreensão em meio a autores que não se afinizam com esta família metodológico-epistemológica.



Não chegamos a publicar artigo deste estudo. A monografia completa pode ser obtida na Biblioteca da Fundação João Pinheiro, em Belo Horizonte-MG