domingo, 13 de julho de 2008

Cultura Organizacional do Executivo Mineiro


Figura 1: Psicologia do Trabalho e Gestão de Recursos Humanos

Maria Candelária e Barnabé são duas caricaturas do servidor público. A primeira, apadrinhada, do alto escalão, é personagem de marchinha de carnaval. O segundo, baixo escalão, terninho surrado, vive entre o jornal e o cafezinho, batendo o ponto no final do dia.

Esta visão pejorativa do servidor público, conhecida nacionalmente, foi ampliada por Veneu, que dividiu o setor público em três grandes grupos de servidores a partir das representações sociais:
O primeiro grupo, ligado a tarefas burocráticas é dividido entre os "caxias" (que se preocupam com resultados, vistos como "otários"), "carreiristas" (que se servem do poder público para crescer e obter vantagens, de forma oportunista e meio malandra) e os "barnabés pobres" (que fazem bicos para sobreviver).
O segundo grupo é o das estatais, visto com uma imagem melhor pela sociedade. Visto como eficiente e possuidor de mérito por apresentar resultados.
O terceiro grupo é composto dos servidores da saúde, educação e outros serviços sociais. São vistos como "missionários" porque encarna a idéia de auto-sacrifício, vocação e missão social.
Postas estas representações, a Fundação João Pinheiro realizou uma pesquisa para identificar como se viam os servidores do executivo do Estado de Minas Gerais. Mais que uma auto-representação, tentou-se identificar os valores, crenças e pressupostos básicos que orientariam ou pelo menos se imiscuiriam na gestão das agências de Estado.





Figura 2: Logomarca Atual da Fundação João Pinheiro

Foram pesquisados 5065 servidores da administração direta e indireta, envolvendo, nesta última, autarquias, fundações, empresas públicas e órgãos autônomos.
O perfil da amostra é muito semelhante aos dados colhidos alguns anos antes da pesquisa no censo do servidor público do Estado.
Nosso melhor resultado foi com a análise de conglomerados (cluster analysis) que mostrou a existência de sete diferentes subculturas no Estado:
1. Subcultura de Estruturação e Planejamento (os servidores entendem que normas, valores e papéis estão bem definidos, são claros, revistos periodicamente em função da produtividade, as pessoas são bem informadas, há uma política de RH definida, existe delegação e distribuição de poder em vários níveis e discordam quando se diz que não há planejamento do trabalho)

2. Subcultura de Participação e Liberdade para Criação (os servidores afirmam que se realizam no trabalho, que têm liberdade para criar, podem expressar seus sentimentos na organização, e têm suas idéias e sugestões utilizadas para melhorar os resultados)

3. Subcultura de Poder das Chefias (neste grupo, semelhante aos carreiristas de Veneu, os servidores concordam que os cargos comissionados são fonte de salário e poder)
4. Subcultura de Identificação com o Serviço Público (estes servidores afirmam identificar-se com o serviço público)
5. Subcultura de Insatisfação com o Serviço Público (este conglomerado de servidores, entendem que a política salarial é insuficiente para manter os servidores nas instituições públicas e entendem que o serviço público não vai mudar).
6. Subcultura de Desvalorização do Serviço Público (este conglomerado é dos que entendem que a imagem que a sociedade faz do servidor é compatível com a realidade que vivem e que não se exige qualidade no trabalho)
7. Subcultura de Acomodação (este conglomerado afirma preferir o trabalho rotineiro e adotam como lema o velho "trabalho o tanto que me pagam", ou seja, trabalho pouco e não faço esforços).
Curiosamente, nesta pesquisa não houve diferenças marcantes entre a administração direta e a administração indireta, ao contrário do que Veneu e a sociedade brasileira percebem. As primeiras subculturas da escala representam uma quantidade muito maior de consensos entre os servidores que as últimas, que são minorias.
À época (1994), não tivemos computadores com capacidade suficiente para fazer análises posteriores e identificar a predominância dos conglomerados nas organizações participantes, apenas as comparamos por similaridade de conglomerados.
Seria bem interessante voltar aos dados nos dias de hoje, mas temo que a Fundação já não os tenha mais guardados.
Se você quiser ler o relatório completo da pesquisa, precisa entrar em contato com a biblioteca da Fundação João Pinheiro, Av. das Acácias 70, São Luis. Belo Horizonte-MG. Quem quiser apenas um artigo do trabalho, pode encontrar no livro "Psicologia do Trabalho e Gestão de Recursos Humanos: Estudos Contemporâneos", publicado pela Casa do Psicólogo.

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